Uma latrina particular com paredes de vidro ou um espaço para contos, crônicas, artigos e até poesia sobre assuntos pseudo-cotidianos e comentários sobre coisas quaisquer
Achei curioso poder ouvir os gemidos do senhor vindo lá da sala com a dentista. Havia a detestável música do consultório, havia o trânsito lá fora, havia o folhear da moça e os cliques da caneta da secretária, mas, ainda assim, era possível ouvir os gemidos e os palavrões. A moça parara, então, de ler, e eu ergui a cabeça um tanto apreensivo. Letícia, por outro lado, olhava de soslaio e com certa volúpia para o corredor...
Tendo se desvincilhado da leitura, observei-a abrir novamente sua bolsa e retirar dali um pequeno estojo fino de plástico e, dele, uma caneta azul. Fechou-o, deixou-o de lado, retirou a tampa da caneta e aproximou-a do livro. Ah, ia riscá-lo! Mas hesitava, hesitava pois ao meu ver era a primeira vez que deixaria um traço seu em um livro, seria a primeira vez – aposto que pensou precisamente nessa palavra – que iria violar um livro! E justamente um livro velho e surrado, não? Eu sabia que pensava assim.
Ela demorou mesmo alguns segundos...
Leia tudo
Thu, 13 Sep 2007 21:01:13 -0300
Eu esperava impaciente a minha vez. O ambiente não me agrava nem um pouco e o som vindo daquelas pequenas caixinhas próximas ao teto, sintonizadas em uma FM qualquer, me irritavam e impediam que eu me concentrasse na revista antiga que eu tinha em mãos. O relógio da parede não se movia. A secretária, bela moça, rabiscava qualquer coisa atrás alto balcão – eu via apenas seus olhinhos concentrados e os cabelos pretos sendo puxados pela gravidade por sobre seu semblante inexpressivo. Ela rabiscava para passar o tempo e nos ignorar.
Havia ao meu lado direito um senhor, um pouco gordo e espaçoso, vestido em tons de bege e com os braços cruzados sobre a barriga proeminente. Não me virei para olhá-lo com mais atenção, justamente por estar ao seu lado, e creio que mantinha o queixo próximo ao tórax, olhando para baixo, e perdido em pensamentos. Respirava alto demais.
Quinze minutos para minha consulta. Eu movia a perna direita com velocidade, levantando-a rapidamente na...
Leia tudo
Tue, 04 Sep 2007 20:53:52 -0300
O homem estava sentado no banco da praça com os olhos cerrados pelo sol da manhã. O céu estava azul e a brisa fresca balançava alguns fios de seus cabelos grisalhos. Olhava sem dar atenção para as coisas à sua volta, perdido em pensamentos bobos, na recapitulação dos compromissos do dia e em reflexões sobre sua vida pessoal.
Havia atingido um estágio matrimonial onde os rótulos amáveis que costumava dar à sua esposa haviam sido substituídos por um único estandarte carregado por sua repulsiva cônjuge com os dizeres: estorvo casto. Há tempos havia constatado que a internet lhe proporcionava mais prazer do que sua mulher e por várias vezes cogitara investir uma certa quantia de seu salário em prostitutas. Tinha um filho pequeno também, mas o menino nunca lhe fora motivo de orgulho ou alegrias, diziam-lhe que era parecido com a mãe e nisso ele concordava plenamente: era mais um incômodo.
Por outro lado, nada lhe era mais prazeroso, nada lhe causava mais excitação...
Leia tudo
Fri, 31 Aug 2007 21:18:46 -0300
Era fim de tarde, um domingo nublado e chato, e eu voltava de um... passeio.
Voltava rapidamente, pois é assim que ando por aí, sempre com pressa até perder o ritmo para o cansaço e então, depois vários minutos, passo a caminhar como os outros e acabo indo muito mais longe do que qualquer um deles.
Enfim, eu caminhava, ainda rapidamente, e, como todos sabem (ou deveriam saber), a única vantagem dos domingos nublados e chatos é a solidão ao ar livre – pelo menos é raro encontrar isso no centro da cidade. Sim, a não ser que você passe perto de um aglomerado bares ou botecos, há poucas chances de se cruzar com alguém pelas calçadas desertas. Ainda assim, é necessário evitar as avenidas principais por motivos óbvios e por isso enveredei-me por ruas ermas e vielas.
Eu caminhava, como vos disse, e ia perdido em pensamentos pela calçada espaçosa e suja. Do outro lado havia um homem de camiseta preta e jeans escuro, ambos desbotados, escorado num muro de um modo bastante...
Leia tudo
Tue, 28 Aug 2007 21:31:51 -0300
— Diz-se que o #3 é de minuto. E com ob-je-ti-vi-da-de!
§ Ler no monitor é um porre. Imagens são mais acessíveis.
§ Ler coisas em imagens, então, é bem mais legal (desde que não seja muito).
§ No Overmundo acabei constatando isso também: se tem imagem o pessoal olha com outros olhos e vota mais. Batata.
§ Eu mesmo faço isso às vezes. É tão rápido, tão fácil, tão... expressivo.
§ Imagens diferentes, poemas curtos, imagens com poemas curtos. Condizem com a pressa despropositada com a qual navegamos por aí.
§ "Ah, esse tem cinco parágrafos de umas 10 linhas! Vou levar um tempão pra ler" – e eu sei que você, como eu, já pensou assim alguma vez.
§ Isso também é culpa do autor por não conseguir fisgar o leitor nas primeiras linhas.
§ O problema é quando quer-se uma introdução, um início suave e gradual. Nem sempre vale a pena gastar tudo no primeiro parágrafo.
§ O autor joga dados com o humor do leitor que desconhece: "Tomara...
Leia tudo
Mon, 27 Aug 2007 15:24:50 -0300
Era mais uma bela manhã de domingo, céu azul, temperatura agradável, a brisa entrava pela janela e balançava as cortinas e o jornal que acabara de abrir com entusiasmo. Eis que ali, na terceira ou quarta página, estava aquilo que ele procurava com tanta avidez:
Prezado Leitor,
O Comitê Nacional Formador de Opinião vem por meio deste informar quais deverão ser suas opiniões ao longo da semana sobre os mais diversos assuntos que estão e estarão em pauta no país e no mundo. A não ser que tais itens sejam revisados por nós nos próximos dias, é dever do leitor praticar e defender com sua honra todos os pontos aqui explicitados contra aqueles que não têm acesso aos nossos comunicados ou aos subversivos que teimam em nos contrariar.
Lembramos ainda que nossas opiniões são fruto de vários anos dedicados aos estudos nas mais diversas áreas, tanto no Brasil quanto em países de primeiro mundo, e, portanto, são de extrema importância para o desenvolvimento intelectual e...
Leia tudo
Fri, 24 Aug 2007 21:26:31 -0300
O som da rua movimentada daquela tarde invadiu o ambiente quando a porta foi aberta por um homem alto de cabelos castanhos e volumosos, vestindo uma jaqueta de couro e calças pretas, com o semblante sério e esfregando os dedos na barba que lhe cobria o queixo. Assim que entrou sequer observou o interior do estabelecimento e logo dirigiu sua atenção para um balcão do lado esquerdo que exibia diversos colares, pingentes, broches e anéis.
Do outro lado do balcão sentava-se uma mulher de rosto cansado e entediado, aparentando cinqüenta anos ou mais, mastigando a ponta dos cabelos grisalhos que desciam-lhe até os ombros. Usava um casaco feito de lã cinza e vermelha e em seu colo segurava um adormecido poodle preto e bastante velho. Havia também uma garota que limpava as prateleiras e que interrompeu o serviço para observar o homem com certa curiosidade, pois não era sempre que algum cliente entrava e demonstrava tanto interesse nos itens à venda.
O pigarro da senhora deu início...
Leia tudo
Tue, 21 Aug 2007 21:23:12 -0300
Tratados e adestrados,
Vossos amigos sentam e pulam,
Para lá e para cá,
(Assustadoramente próximos de mim,
Em movimentos caninos e infantis
Com livrinhos na mão esquerda,
Tercinhos na mão direta e
Gravatinha no pescoço),
Repetindo tudo aquilo
Que vos enfiaram na cabeçorra.
Vejo-a de vestido longo e vermelho:
A bela voz da bela moça mascara
Sutilmente a inteligência mortificada.
Indivíduos! -- eu grito,
Permitam-me que vos diga o seguinte:
"A civilização não passa de ruínas,
Erguem troféus vetustos em abismos
Ignorando os dementes que, em verdade, o são.
Em meus sonhos mais orgasmáticos,
Desejo profunda e apaixonadamente,
Que vós, sem excessão, dilacereis os vossos olhos
Com anzóis pontiagudos ou com a navalha de Dali;
Que amputeis vossos membros e desçais rolando
Pelos paralelepípedos da minha rua... Ah!
Jogar-vos-ei confetti e elogios,
E até música posso vos dar:
Cairá bem neste desfile bravio
A ira de Beethoven ou a de Bach?"
Imagino-me no parapeito da janela,
Ébrio de sadismo e satisfação,
Apostando meus últimos tostões
No rolar dos corpos desmembrados!
Vejo, também, labaredas e arpões,
E mais outros detalhes sórdidos
Que até me causam regozijo
E um sorriso cheio de dentes.
Mas tenho esperanças contra
Esta estupidez hereditária e
Contra o retrocesso intolerável:
Aos bueiros com vosso ensino, nescialhada!
O sol castigava todos os passageiros do ônibus cheio e o chacoalhar constante causava sonolência e mal-estar, algo como uma ânsia que ameaçava ganhar força ou um suor anormal na região da lombar, umedecendo camisetas e vestidos e fazendo com que as pessoas se movessem incômodas os poucos centímetros que podiam – para evitar o contato com os corpos oleosos ao redor – e suspirassem impacientemente ao tentarem perder-se na paisagem urbana que passava com certa velocidade do outro lado dos vidros sujos e riscados.
Via-se uma moça sentada e cabisbaixa, com livros e um caderno sobre as penas, cruzando as mãos sobre o material para segurar também um estojo verde, bastante velho. Usava calças e moleton azuis num tom claro, quase infantil, embora aparentasse estar na casa dos vinte anos. Os cabelos eram pretos e estavam presos e tudo aquilo intrigava as pessoas mais próximas, pois ela estaria sofrendo mais do que qualquer um com o calor infernal que se acumulava dentro...
Leia tudo
Wed, 15 Aug 2007 21:16:48 -0300
Havia a chuva, torrencial, e havia uma mulher deitada sobre a cama, com um vestido claro, de tecido bem fino, perdida em pensamentos enquanto observava o corpo arquejar e arrepiar-se com o frio que passara a sentir. A luminosidade do quarto vinha do dia nublado e ruidoso, entrando tímida pela janela antiga e irradiando-se com dificuldade pelo modesto aposento.
Ela quis se levantar, mas o corpo reclamou, não entendia o porquê de todo aquele cansaço, embora se sentisse bem ouvindo o som da chuva e movendo lentamente os pés descalços que escapavam pela lateral da cama, esboçando um sorriso infantil e alegre, sem motivos claros para sê-lo.
Pensou nele, levantou-se – pés descalços pelo tapete bege – e foi até a porta onde deteve-se por alguns instantes, com a mão delicada repousada sobre o trinco gélido, pensando se realmente deveria ir vê-lo naquele momento ou se deveria esperar mais um pouco como prometera. Interrompê-lo desagradaria à ambos.
Decidiu que iria...
Leia tudo
Mon, 13 Aug 2007 13:14:20 -0300
--- Este é o #2 e ele está em Si bemol.--- Não, não! Faça em Dó que vende mais!
§ Constatei há algum tempo que existem poucas bandas hoje em dia que me agradam.
§ E das que tocam hoje, entretanto, a maioria se formou na década de 60, 70 ou 80.
§ A impressão que tenho é que os anos 90 jogaram um balde de água fria na música (leia-se Rock, Progressivo, Experimentalismos e afins) e esta parece não ter se recuperado ainda.
§ Acho que o CD matou a música. Pelo menos as músicas boas -- no meu critério de avaliação.
§ Ou simplesmente não há mais motivos para fazê-las, talvez não haja muitos outros ideais ou inspirações para originar...
--- Diz-se que o #1 é apenas uma introdução. Mas fiz sobre a Morte mesmo.
§ Houve uma infinidade de tempo antes do meu nascimento e haverá uma infinidade de tempo após minha morte: por que hei de me preocupar com misticismos quando o que realmente importa é a minha brevíssima existência?
§ Isto é, por que nos preocupamos com a não-existência por vir se ignoramos completamente nossa não-existência anterior?
§ O Nada, sem dúvida, nos amedronta.
§ Não existir é um pensamento terrivelmente assustador e, em muitas ocasiões, difícil -- ou até mesmo impossível -- de ser aceito por nossos egos orgulhosos.
§ Talvez não haja clichê...
Havia a chuva, intensa, e a mulher observava tudo da janela, expelindo fumaça para seu jardim -- apertando o filtro do cigarro com os dedos trêmulos, o último terço deste consumia-se aos poucos, e ela sentia a calor subir-lhe pela mão, impregnando-lhe as roupas com o cheiro de seu vício. Dias nublados deixavam-na tensa, introspectiva, embora no todo não mudasse tanto: ele passara há pouco pela sala, sério, trocaram duas palavras e aos seus olhos ela era quase sempre a mesma moça fumando seu cigarro na janela.
E quando ele a deixou para trancar-se em seu aposento ela se debruçou no parapeito e suspirou longamente, sentia-se vazia e incompleta, da mesma forma que se sentiu quando dormiram juntos pela primeira vez...
Havia a chuva e, mais do que isso, um sonho conturbado e cinza demais. Com a mão tocava o vidro frio, respingado de gotas barulhentas e constantes, querendo fugir do claustro tênuemente iluminado antes que o mau tempo se desfizesse e os raios de sol penetrassem por entre os vãos de seus dedos, trazendo aquela alegria plástica e volátil que ele não queria ter.
Fechou o punho e bateu contra o vidro, teve medo de pôr força demais e vê-lo quebrar, embora fosse exatamente isso que desejasse em seu íntimo. Olhou envergonhado para o quarto e todos os retratos o olharam de volta com escárnio. Tinha medo de se machucar.
Ouviu o farfalhar das folhas molhadas...
Estava endiabradamente enlouquecida
E num porre mudou toda sua vida:
Dizem que pelo som estridente
De uma corda tencionada
Realmente se entende
A beata profanada
Se contorcendo
E... correndo
Sem roupa
Pelada
Nua
Só
V
.